Mundo faminto e soluções inovadoras

“Anton Khrypunov cozinhou os órgão internos de sua irmã de oito anos para comer. Poderiam, ainda, ser mencionados outros casos”. O trecho do livro “Holodomor: O Genocídio Ucraniano” não trata de um serial killer mas, sim, sobre até onde a falta de comida pode levar as pessoas ao contar um dos dramas do caos alimentar que matou 7 milhões de pessoas na Ucrânia no início dos anos 1930.

O extremo de não ter o que comer talvez seja um dos maiores desesperos pelo qual o ser humano pode passar e também levou ao antropofagismo um grupo de jogadores de rugby uruguaios em 1972. Eles, depois de uma catástrofe aérea na Cordilheira dos Andes, tiveram que alimentar-se da carne dos próprios amigos mortos para resistir durante 72 dias, a 3600 metros de altitude com 20 Cº negativos, até serem resgatados.

Não são só casos isolados. Durante o século XX, estima-se que 70 milhões de pessoas morreram de fome em todo o globo por questões políticas, conflitos armados ou desastres produtivos regionais, como na China (1958-61), Bengala (1942-45), Camboja (década de 1970), Etiópia (nos anos 1980), Coreia do Norte (nos anos 1990) e uma lista de dezenas de crises alimentares que chegam até o nosso quintal, no Nordeste brasileiro.

O pior é que casos críticos de falta de comida podem se tornar muito mais comuns se estiverem certos os teóricos conhecidos como neomalthusianos. Estes seguidores do economista britânico do século XVIII Thomas Malthus (1766-1834) defendem que o aumento populacional é geométrico (2, 4, 8, 16…) e o crescimento da oferta de alimentos aritmético (2, 4, 6, 8…).

Ou seja, em pouco tempo faltaria comida, aumentaria a fome e, fatalmente, viriam guerras, subnutrição e, talvez, até mesmo, mais canibalismo… Malthus já errou uma vez pois, 200 anos depois e 6,2 bilhões de bocas a mais desde quando lançou sua teoria, temos mais comida do que conseguimos comer. Mas será que agora ele vai acertar?

Apetite

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), estima-se que éramos 7,6 bilhões de pessoas em outubro de 2017. Em 2050, seremos 9,8 bilhões e, apesar do aumento de 29% na população, a demanda por alimentos vai disparar em 60%.

O motivo é que a renda per capita mundial crescerá 80% nos próximos 40 anos e, principalmente, nos países e continentes com mais população (China, Índia e África) onde as pessoas comem menos atualmente.

A lógica é simples. Com renda de US$ 6,1 mil em 2010, cada ser humano comeu, em média, 43 kg de carne. Em 2050, com US$ 11,2 mil no bolso, o consumo per capita saltaria para 68 kg, segundo a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico). E isso também vale para legumes, verduras, frutas, raízes e assim por diante.

Em 2010, a produção mundial de alimentos chegou a cerca de 2,4 bilhões ton de grãos, pouco mais de 1 bilhão ton de legumes e verduras, 750 milhões de ton de raízes e tubérculos, 613 milhões de ton frutas (fora cítricos), 296 milhões de ton de carne, 127 milhões de ton de cítricos e 14 milhões de ton de frutos secos entre outros quitutes como cana de açúcar, ovos, leite, peixes, algas, cogumelos, etc.

É preciso bastante comida para abastecer com cerca de 2800 kcl/dia em média cada habitante do planeta, distribuídos em vitaminas, fibras, proteínas, carboidratos, açúcares, etc. Agora imagine que todo este volume precisa aumentar em 60% e dispomos dos mesmos recursos naturais (talvez até menos) de quando éramos apenas 1 bilhão de pessoas.

Falta tudo

Em 2010, só para atender a demanda humana por grãos, que ocupam mais da metade da área cultivada do planeta, foram necessários 696 milhões de hectares de terra espalhados nos cinco continentes.

Se a solução para aumentar a produção fosse apenas usar mais terra, precisaríamos de 420 milhões de hectares a mais no globo com clima, relevo e recursos hídricos favoráveis (um espaço equivalente à União Europeia) para suprir uma demanda 60% maior só de grãos.

Se contarmos os outros tipos de alimentos, poderíamos dobrar isso, ou arranjar praticamente um Brasil inteiro livre para plantar com os índices de produtividade atuais. O primeiro problema é que este espaço não existe e fica ainda mais improvável quando se considera a necessidade de preservação de florestas, biomas, nascentes de rios e outras áreas de proteção.

Pouquíssimos países têm algum volume expressivo de terra agricultável. A maior exceção é justamente o Brasil que, sem entrar em áreas de proteção ambiental ou reservas indígenas (61% do nosso território), tem 324 milhões de hectares “agricultáveis”. Hoje, a agropecuária usa cerca de 27% e as cidades pouco mais de 11% do território.

Os outros países com estoque de terras relevantes são os EUA (120 milhões de hectares), Rússia (100 milhões), Austrália (50 milhões), Sudão (41 milhões), Argentina (38 milhões), Canadá (22 milhões), Colômbia (20 milhões), Venezuela (18 milhões), Ucrânia (8 milhões), México (6 milhões), Indonésia (5 milhões) e França (4 milhões). Fora isso, quase nada.

No caso do Brasil, vale destacar, que não seria preciso sequer avançar sobre este “estoque”. Apenas usando melhor nossas terras poderíamos responder ao mundo com o que, de certa maneira, se espera de nós. Temos hoje menos de uma cabeça de gado por hectare de pastagem e se transformássemos isso em dois bois por hectare já liberaríamos muitíssimo território (cerca 100 milhões de hectares) sem derubar nenhuma árvore.

Outro problema mundial para aumentar a produção agrícola é a escassez de água. Novamente o Brasil é a nação mais “abençoada” com este recurso. O país detém a maior reserva mundial disponível e concentra 12% da água doce de superfície do planeta.

Os outros poucos países “ricos em água” são aqueles que têm índice de 10.000 m3/hab/ano a 100.000 m3/hab/ano como Austrália, Colômbia, Venezuela, Suécia, Rússia, Albânia, Canadá, Argentina e Angola. O Brasil tem 35.732 m3/hab/ano. Ainda existem os “muito ricos em água” como Guiana Francesa, a Islândia, o Gabão, o Suriname e a Sibéria (Rússia), mas estes não têm quantidade expressiva de terras para cultivar.

Ainda há um terceiro problema: os fertilizantes são limitados e não renováveis. Se o fósforo, talvez o mais importantes deles, não for usado com sabedoria poderíamos esgotar as reservas mundiais em apenas 60 anos. Sem fertilizantes, produtividade baixa e maior chance de fome generalizada. E apenas quatro países – Marrocos, China, África do Sul e Jordânia – controlam 80% das reservas de fosfato utilizável do mundo.

Isso sem falarmos na disputa pelos mesmos recursos para a produção de fibras (para roupa, tecidos, etc) e biocombustíveis. Mas com pouca terra, escassez de água, fertilizantes acabando e a obrigação de preservar o meio ambiente, o que fazer para aumentar a produção de alimentos?

Não tem pão?

Apesar de simpática, a resposta não é a produção orgânica que, no exemplo do milho, produz hoje 25% menos que as culturas convencionais e 64% menos que os transgênicos. Na prática, comida pouca e cara que poderia atender somente uma elite da população mundial com dinheiro suficiente para pagar uma produção menos eficiente.

A palavra de ordem que corre entre cientistas, pesquisadores e as empresas que trabalham com agricultura e pecuária é: “produzir mais com menos”. E nesse caminho, a ciência, a pesquisa e a tecnologia são todos os instrumentos que o ser humano tem para, com o crescimento populacional, não precisar encarar grandes fomes.

Na verdade, se as novas técnicas (a transgenia cobre 91,1% da produção de soja, por exemplo) não estivessem sendo utilizadas, teríamos muito mais do que os atuais 815 milhões de famintos estimados pela ONU. As novidades da ciência utilizadas com critério garantiram produção suficiente para todos e só existe fome por questões de distribuição, concentração de riqueza, desperdício ou outras causas.

Pode parecer impossível produzir tanta comida a mais quando imaginamos o espaço e os recursos que a agricultura e a pecuária já demandam. Mas, para ficar mais otimista, basta lembrar que triplicamos a produção mundial de alimentos nos últimos 50 anos devido, principalmente, a descobertas da ciência.

E não é de agora. A invenção da agricultura há 10 ou 12 mil anos, do arado (no Egito Antigo), da rotação de culturas (na Europa medieval ou com os Maias), da semeadeira mecânica (Jethro Tull, no século XVII – a banda de rock é uma homenagem a ele) e tantas outras técnicas já haviam feito isso antes.

Mais recentemente, na década de 1950, a chamada revolução verde iniciou uma série de inovações tecnológicas como melhoramento genético (sementes híbridas), uso de insumos industriais (defensivos e fertilizantes), mecanização de plantio e colheita, irrigação e redução nos custos de manejo que aumentaram enormemente a produção em países desenvolvidos e não-desenvolvidos “resolvendo” o problema da falta de alimentos pelo menos quanto ao volume.

Um pouquinho de Brasil

O Brasil, talvez, seja um dos melhores e maiores exemplos de como o ser humano e a ciência podem encontrar soluções sustentáveis para “ter o que comer”.

O desenvolvimento das lavouras no cerrado brasileiro por meio da técnica do plantio direto e outras tecnologias de agricultura tropical foi chamado pelo Prêmio Nobel da Paz, Norman Borlaug, o pai da revolução verde, como “uma das maiores revoluções da história”.

Borlaug, tido como “o ser humano que mais salvou vidas” em todos os tempos – algo entre 250 milhões a 1 bilhão de pessoas teriam morrido de fome se não fossem as técnicas difundidas por ele e outros pesquisadores -, morreu em 2009 mas, antes, conheceu bem os resultados dos produtores brasileiros pois visitou algumas vezes nosso país.

A série histórica da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostra que a produção no Brasil foi de 40 milhões de toneladas de grãos em 37,5 milhões de hectares em 1977/1978 contra 238,7 milhões em 60,8 milhões de hectares em 2016/2017. Um aumento de 496,7% na produção e de apenas de 62,1% na área cultivada nos últimos 35 anos.

Um salto de 1,06 toneladas de grãos por hectare em 1977/78 para 3,92 toneladas por hectare em 2016/17. Isso também vale para todas as principais culturas. Em tonelagem por hectare, a produtividade cresceu em algodão (de 0,43 para 2,44), arroz (de 1,5 para 6,22), feijão (0,488 para 1,69), milho (1,632 para 5,55), soja (1,748 para 3,36), trigo (0,655 para 2,70), entre outras.

Uma das consequências foi a melhora na qualidade de vida do brasileiro. A eficiência da produção de alimentos no Brasil permitiu que a parcela da renda familiar média utilizada para compra de alimentos caísse de 48% em 1968 para 16% em 2011. Isso representa uma redução de 66% na parte da renda familiar média dos brasileiros que é usada para compra de comida.

O mais incrível é pensar que, com tantos recursos naturais, chegamos a importar a preços muito mais altos grande parte dos alimentos que consumíamos. Parece inacreditável mas importávamos, na década de 1960, quase 30% do que consumíamos, como arroz das Filipinas, feijão do México e do Chile, carne da Austrália, Argentina e Uruguai.

Hoje, o Brasil é uma potência agropecuária, somente atrás dos EUA e UE que são economias altamente desenvolvidas. O agronegócio tupiniquim responde por 23,5% do PIB, um terço dos empregos e para cerca de 45% das exportações do país. Do total, o povo brasileiro consome 70% da produção nacional de alimentos e o 30% de excedente é exportado.

Parece bastante? Pouco. Nosso “compromisso” com o mundo, segundo alguns estudiosos da segurança alimentar, é suprir até 50% do aumento da demanda prevista até 2050. A máxima de que somos o “celeiro do mundo” e o “país do futuro” se explica em muito pelo potencial que a produção agropecuária brasileira tem.

Soluções

A espécie humana conseguiu prosperar graças a descobertas da ciência (que também deve ter seus limites) e, agora, mais do que nunca, a pesquisa por novas tecnologias que conciliem aumento da produção, segurança alimentar e sustentabilidade é o único caminho. Ou então, não poderia haver mais gente, talvez seus filhos, irmãos, primos, sobrinhos, netos…

Mas, afinal, o que a ciência já aponta como soluções para alimentar um mundo cada vez mais faminto? Muitos especialistas estão otimistas com dezenas de novas técnicas para produção agrícola e pecuária, além de outros tipos de alimentos (sim!), e já apostam que haverá alimentos sustentáveis para mais alguns bilhões de terráqueos.

As alternativas são muitas e, a seguir, selecionamos algumas das possíveis soluções –

Ambientes controlados – Os ambientes controlados são como estufas e permitem que as genéticas desenvolvam todo seu potencial graças a condições de ambiente e manejo praticamente perfeitas para várias espécies. Esta técnica permite ampliar o número de colheitas a cada ano, maximizando o volume produzido e o rendimento de várias plantas. Em tomate, por exemplo, é possível elevar a produtividade de 9 kg/m² para 80 kg/m² (800% de aumento!). Isso vale para várias outras: rúcula, incremento de 210% (de 1,5 kg/m² para 4,7 kg/m²); pimentão, 480% (2,5 kg/m² para 12 kg/m²); e pepino, 590% (4,4 kg/m² para 26 kg/m²), entre outras. Uma verdadeira “fábrica” de hortifrutis. O problema é justamente este. Apesar de muito eficiente para legumes, verduras e algumas frutas, a técnica é muito cara para culturas que exigem maior escala, como grãos. Ainda assim, pesquisadores brasileiros obtiveram 15 toneladas de trigo em 1 hectare em um teste realizado no Brasil quando a média do país é de apenas 2 toneladas (incremento de 750%). Ou seja, se a fome apertar também não faltará matéria prima para fazer pão.

Hidroponia – É uma área ampla mas fundamenta-se no princípio de que o solo é apenas meio físico de sustentação. Já existem sistemas hiropônicos para mais de 100 tipos de plantas que usam uma solução nutritiva de água, nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e enxofre além de boro, cobre, manganês, zinco, molibidenio e ferro nas raízes das plantas em forma corrente ou vaporizada (aeroponia). Isso facilita a absorção e as plantas produzem em média 100% mais volume e 50% mais rápido. No Japão, a técnica já é utlizada para produzir dentro de grandes cidades seja no subsolo de restaurantes, cozinhas industriais e mesmo casas. Com a luz apropriada e orientação de um técnico, uma família de quatro pessoas, por exemplo, precisaria de 4m² para produzir 30 pés de alface por mês com a hiroponia. No futuro, se cada condomínio nas grandes cidades fizesse isso, além de legumes e verduras fresquinhos, reduziríamos o trânsito, a poluição e abriríamos “espaço” para outras culturas no campo.

Produção cúbica – Ao invés de horizontalizar a produção, é possível verticalizar. Seriam como pilhas de mini-estufas (com cultivos de ambientes controlados) que ocupariam muito menos área territorial para produzir muitas variedades de verduras e hortaliças. O tamanho dos “cubos” dependeria apenas da capacidade e do custo de guindastes para empilhar e desempilhar ou, ainda, dos projetos dos “prédios horta”. Isso já é realidade mas para espécies de produção limitada e de alto valor agregado como alface. Plantas que se desenvolvem em árvores (precisam de mais espaço) ou dependentes de escala para viabilidade econômica, provavelmente, não usarão esta técnica mesmo no futuro. O curioso é que, por usar menos espaço horizontal, a produção cúbica poderia usar o campo mas também rumar para dentro das cidades.

Algas – O potencial de gerar alimento a partir das algas é incrível. Elas são capazes de produzir proteína 21 vezes mais que a soja e 49 vezes mais que o milho e quadruplicar sua biomassa a cada dia. Pesquisadores de uma empresa privada com sede no Brasil geraram 20 toneladas de matéria seca a partir de 150 ml da alga Chlorella em apenas nove dias!! E ainda existem outros 800 mil espécies para se pesquisar. Só isso seria motivo para imaginar elas cada vez mais presentes no cardápio humano. Mas, para as algas, quantidade também é sinônimo de qualidade uma vez que várias delas, como a Schizochytrium limacinum, possuem muito ômega 3 e 6, antioxidantes, ácidos graxos, vitaminas, etc, etc. Se você acha estranho, não se esqueça das algas nos temakis de final de semana… Por enquanto, as algas são mais usadas para produzir biocombustíveis o que, de certa maneira, já é bom para liberar espaço para lavouras.

Piscicultura – A conversão alimentar é um índice usado para medir quanto os animais precisam comer de ração para ganhar um quilo. Bovinos, aves e suínos ingerem sempre mais comida do que ganham em “peso vivo”. Alguém poderia pensar que é normal pois parte da comida é digerida e eliminada pelo animal. Está certo mas existe uma exceção: a produção moderna de peixes. As tilápias em aquários chegam a ganhar 1 kg vivo com apenas 760 gramas de ração. Sim! A explicação é que, além da ração, elas comem as algas microscópicas que surgem espontaneamente nos reservatórios. E mais, testes com tambaquis na Amazônia mostraram que o volume produzido por hectare pode aumentar 176% (de 6,5 para 18 toneladas) com tanques escavados e aeração artificial (que usa eletricidade). Por isso, muitos apostam que a eficiência dos peixes, assim como seus benefícios para a saúde, vai elevá-los nos cardápios ao redor do mundo.

Melhoramento genético – A seleção genética permitiu que animais de produção (aves, suínos, bovinos, entre outros) gerem mais carne com menos ração. Por exemplo, a criação de frangos, na década de 1950, exigia 3 kg de ração para cada quilo de peso vivo nos animais que chegavam a 1,9 kg em 70 dias. Hoje, é necessário 1,68 kg de ração (44% melhor) para cada quilo de frango vivo e eles alcançam 2,4 kg em menos de 40 dias. Até 2030, segundo especialistas, estas aves comerão 1,2 kg de alimento como milho e soja para ganhar 1 kg, ou seja, uma melhora de novos 28,6% na conversão alimentar. Os suínos também, para ganhar um quilo, comiam 4 kg de ração nos anos 1970 e não passam de 2,3 kg nas granjas mais eficientes. Até 2030, cada porquinho vai precisar de apenas 1,8 kg de ração para ganhar 1 kg. Tudo isso pela seleção dos exemplares com melhores genes por meio de marcadores genéticos, sem qualquer hormônio. Aliás, não se usa hormônio na produção de animais pois é caro e ineficaz, além de proibido.

Nutrigenômica – Até hoje, 80% da melhora do desempenho na produção animal se deve à genética mas a nutrigenômica chegou para equilibrar as coisas. A interação entre a nutrição e os genes é o foco desta ciência que abre grandes perspectivas de aumento da produção, especialmente das carnes. Funciona assim: técnicas de mapeamento genético em nível molecular identificam os genes de interesse comercial do DNA que estão “desligados” no RNA que, na prática, geram a expressão genética. A partir dos nutrientes certos, eles são ativados e isso melhora a quantidade e a qualidade da carne produzida bem como a saúde de bovinos, suínos, aves, peixes, ovinos, etc, para reprodução ou, até mesmo, o comportamento. Ou seja, o potencial genético de cada espécie chega mais perto de sua expressão máxima em características boas para a nutrição humana como diminuição da gordura e do colesterol, maior sabor e maciez, entre outros pontos. Tudo isso naturalmente sem mudar os genes, alcançando o mesmo peso mas com animais comendo até 20% menos em volume e 75% menos em minerais.

Bem-estar animal – A realidade mostrou a produtores que o desempenho dos animais melhora quando suas “condições de vida” são mais confortáveis. A imagem de animais espremidos em um espaço pequeno está sendo coisa do passado simplesmente porque, entre outros motivos morais, dá prejuízo. A preocupação com o bem estar animal e seus resultados econômicos já levaram grandes empresas de equipamentos a desenvolver verdadeiros playgrounds. Os suínos, por exemplo, podem brincar de empurrar objetos e saltar pequenos obstáculos e, depois, se aliviar em massageadores. Os bovinos, além de massagens, são beneficiados com sistemas de irrigação para evitar inalação de poeira. Já as aves, têm cada vez mais espaço e temperatura controlada nos seus ambientes. Tudo isso porque assim eles têm menos doenças e melhor conversão alimentar.

Insetos – “Ricos em nutrientes, de baixo custo, ecológicos e deliciosos”. Foi assim que a ONU sugeriu os mais de 1600 insetos comestíveis (do total de 1,5 milhão de espécies) como uma excelente alternativa para alimentação da humanidade em relatório divulgado em maio deste ano. Mais difundido no Oriente e na África, o consumo dos bichinhos pode parecer “exótico demais” mas comer peixe cru (como o sashimi ou o sushi), tão estranho há 20 anos, está na moda atualmente. Com técnicas apropriadas, eles poderiam ser produzidos em casa pois ocupariam recipientes ventilados com capacidade de 100 ml até 1 kg para compor de 5% a 10% da nossa dieta. Sim, eles têm altos índices de proteínas (a barata cinérea tem 60% enquanto o boi, 28%), gorduras saudáveis, vitaminas (como a B), minerais, ferro, cálcio, grande produtividade e são ecológicos por consumirem a mesma quantidade de ração para gerar oito vezes mais carne que o boi. Entre os mais apreciados estão as traças, besouros, mosquitos, mariposas, gafanhotos, grilos, formigas, entre outros. Mas não pense que é apenas para classes mais pobres. Restaurantes de alta gastronomia na Europa já têm alguns insetos nos seus pratos mais sofisticados. Se você quiser ser um “pecuarista” de insetos comestíveis, inclusive, existem cursos online para isso.

Plantar nos desertos – Na hora do aperto, até mesmo os solos de desertos podem ser usados para produzir alimentos e seriam mais de 12 milhões de hectares de espaço (quase um Brasil inteirinho e meio) apenas nos cinco maiores desertos quentes do mundo (Saara, Arábia, Kalahari, Gobi e Grande Arenoso na Austrália). Experimentos realizados no deserto do Atacama no Chile mostram que, a partir do uso de fertilizantes hiperconcentrados e irrigação moderna, plantações de cana de açúcar atingiram uma produtividade de até 220 toneladas por hectare quase 175% maior que as 80 toneladas por hectare de média obtidas na “terra roxa” de São Paulo. Outros exemplos consolidados vêm do deserto de Negev, em Israel, que atende 90% de sua demanda interna (e até exportação) com frutas, legumes e verduras a partir de solos desérticos estruturados para a agricultura intensiva e, para água, bombardeio de nuvens e reciclagem de esgoto. O problema é o alto custo mas, entre passar fome e gastar dinheiro, fica fácil a escolha.

Concentração de CO² – Maior concentração de CO², apontado como vilão para o clima, tem um efeito positivo em muitas lavouras. É a tese da pesquisa do Centro de Estudo sobre o Dióxido de Carbono e Mudança Global (do inglês, Center for the Study of Carbon Dioxide and Global Change ) que mostra aumento médio de 51,5% no rendimento das 45 lavouras mais produzidas no mundo com mais 145 ppm de CO² na atmosfera até 2050, contra crescimento de 34,7% se contarmos “apenas” com as novas técnicas. A ONG dos EUA, inclusive, é contra as leis de restrição a emissão do gás pois “isso levaria centenas de milhões a falta de comida” e argumenta que entre a fome e teorias “não comprovadas” sobre o efeito do CO² em mudanças climáticas, a primeira é muito mais eminente. Segundo as estimativas do Centro, apenas nove dos 25 países mais populosos do mundo teriam alimentos suficientes em 2050 sem aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Pelo estudo, sem mais CO² na atmosfera, faltaria comida na Índia, EUA, Indonésia, Paquistão, Nigéria, México, Filipinas, Egito, Etiopia, Irã, Turquia, Congo e Reino Unido.

Genética e agricultura – A genética na agricultura contribuiu com pelo menos 140% do aumento de 200% na produtividade (os outros 60% se deve a manejo, ambiente e melhores defensivos) que as lavouras experimentaram nos últimos 50 anos. Até 2050, o conjunto de técnicas da genética pode gerar mais 280% de ganho em relação a média atual em culturas tão diferentes como trigo ou cana mas, no mínimo, 30% para as demais. Entre estas técnicas, estão o melhoramento convencional (escolher as plantas com melhor resultado e cruzá-las), o melhoramento genético molecular (com muito maior precisão para identificar os genes “campeões”) e a transgenia (que insere um gene externo na planta). Esta última é a mais polêmica mas, na verdade, não gera maior capacidade produtiva nas plantas apenas diminui perdas com pragas e doenças. Só com isso, os OGM´s (Organismos Geneticamente Modificados) pela transgenia produzem, no caso do milho, 103% mais que as lavouras convencionais e 171% mais que as orgânicas. Mas, para muitos especialistas, a segunda geração de transgênicos será para produzir alimentos funcionais (mais ricos em nutrientes) enquanto a resistência a pragas ou doenças será feita por nano-defensivos, muito mais eficientes.

Nanotecnologia – A nanotecnologia aplicada à agricultura poderia, inclusive, acabar com o interesse comercial pelos transgênicos pois, ao invés de inserir um gene exótico na planta, a técnica permitiria apenas “colar” nanopartículas no genoma, sem alterá-lo. Isso possibilitará “enriquecer” os alimentos com características funcionais boas para a saúde, como vitaminas e outros nutrientes. Além disso, reduziria o uso de defensivos agrícolas para quantidades centenas de vezes menores que as utilizadas na agricultura convencional em um combate muito mais eficiente a doenças e pragas. Estas intervenções em nível atômico trariam benefícios de, pelo menos, 30% na produtividade em geral, na minimização de perdas e na redução do impacto ambiental em águas, solo e ar.

Acabar com o desperdício – Segundo relatório da FAO, o desperdício de alimentos no mundo chega a 33% (um terço) de tudo que é produzido, gerando um prejuízo de US$ 750 bilhões por ano. Enquanto isso, 850 milhões de pessoas (12,7% da população) passam fome diariamente. Ou seja, esta comida jogada fora pode matar quase três vezes a fome destes homens, mulheres, crianças e idosos espalhados por todo mundo, especialmente em países e regiões pobres. O documento diz ainda que 54% do desperdício ocorre na fase inicial da produção –na manipulação, após a colheita e na armazenagem. Os restantes 46% de perdas ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Aqui entra a comida que nós colocamos no prato e não comemos! Imagine só… A FAO estimou ainda que, se reduzíssemos pela metade o desperdício, faltaria “apenas” mais 32% de aumento na produção de alimentos para alimentar toda a população mundial em 2050.

Foram fontes para esta reportagem o presidente da Embrapa Soja Alexandre José Cattelan; o consultor Osler Desouzart; o engº agrônomo Maurício Rangel; o professor da Unesp, Morel de Passos e Carvalho; o professor da Universidade Federal de Pelotas, Fernando Rutz; o especialista Csaba Kenez; o engº agrônomo Marcos Gaio; o engº agrônomo Fábio Braz Brass e a engª agrônoma Lisane Colombano; o pesquisador do IAC Luis Felipe Villani Purquerio; o coordenador da APTA Orlando Melo de Castro; e o presidente da comissão de biossegurança da Esalq, Mateus Mondin.

 mundo faminto
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