O brasileiro, a corrupção e o complexo de zelador

A corrupção no Brasil talvez seja a principal razão objetiva para a desigualdade, o atraso econômico e a descrença em relação ao desenvolvimento pleno do nosso País como sociedade, nação e civilização.

Meu ponto é que, como muitas outras, esta questão também sofre com o maniqueísmo partidário instalado no pensamento tupiniquim, turvando o bom senso. Todos reconhecem a corrupção como um problema estrondoso por aqui, mas os detratores deste câncer sistêmico em todos os entes da República dividem-se em dois grupos:

1- Os defensores da ideia de que um povo corrupto apenas poderia ter governantes, empresários, funcionários públicos e etc, etc, corruptos. Por isso, apontam para todos e nivelam qualquer tonteria a desvios bilionários para, astutamente, cotizar o defeito moral e atenuar o desvio de caráter de seus ícones…. Uma espécie de “madalenização” marqueteira da pouca vergonha. Afinal, será que estes concordam com certo grau de corrupção nas esferas públicas em nome de um “idealismo”????

2- Os puritanos inocentes/hipócritas que apontam para alguns indivíduos ou grupos como os únicos propagadores da compulsão cleptomaníaca, criando assim uma falsa sensação de superioridade moral. Neste caso, fica fácil encontrar alívio em uma solução messiânica (com efeito), ilusória e fácil, que não exige mais do cansativo esforço de pensar. Algo como um vassourinha, caçador de marajás ou opressor falastrão. E se o “herói”, ainda, legitima as boçalidades dos próprios apoiadores, tanto melhor!!!

De fato, os dois raciocínios têm lógica, mas isso não é suficiente para chegar a uma verdade mais consistente. Pelo contrário, qualquer um dos pensamentos oculta o que potencializa a corrupção e seus estragos no Brasil. Mais ainda: favorecem que ela siga corroendo as já absurdas estruturas sociais e políticas nacionais.

O povo brasileiro não é, em especial, mais corrupto que outros povos que gozam de muito maior probidade institucional pública ou privada. Minha experiência de vida me permitiu atestar isso pessoalmente.

Mas temos uma diferença, em particular, que explica bem melhor o fenômeno da corrupção. Sempre fomos um povo inquilino, ou pior, “caseiro” de uma grande chácara. Eis mais um de nossos complexos: “complexo de zelador”.

A independência do Brasil foi feita pela elite monárquica. A proclamação da república, pela elite militar. O povo nunca foi protagonista e, agora, continua como massa de manobra.

Assim, falta senso de posse: RÉS – PÚBLICA, coisa de todos! É como se os proprietários poderosos tivessem mais direitos e menos obrigações.

Um patrimonialismo elitista que perpetua a máxima: “aos amigos, os favores, aos inimigos, a lei” (Maquiavel?!?) nos grupos que deveriam dar e ser exigidos em dar o exemplo. Uma espécie de “cosa nostra”…

Nosso sistema político reflete isso em um fisiologismo descarado. O sistema judicial legitima nos privilégios. O sistema tributário reforça no poder econômico. E o sistema sócio-cultural endossa.

Mas o que eu quero dizer?

Tenho duas certezas: a primeira é de que todos os corruptos devem pagar. Não pode haver mea culpa da sociedade (o que cheiraria a novo fisiologismo).

A segunda é que nenhum indivíduo por si só mudará este modelo que favorece a corrupção. Não existe “mito” ou salvador da pátria.

Por isso, infelizmente, sei que pouco vai mudar em curto e médio prazo, uma vez que, se a enorme maioria dos meus amigos classificam-se em um dos dois grupos, imaginem o povo em geral… Continuaremos sendo MUITO roubados.

Não há o mínimo ambiente ou elementos sociais e políticos para, atualmente, acreditar na profunda transformação necessária que nos conduziria ao controle da corrupção.

Minha pueril esperança é que, pelo menos, avanços sociais e econômicos possam, mesmo que a conta gotas, ser retomados… Já aviso, pelo cenário para as próximas eleições, a coisa pode piorar.

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